sábado, 30 de agosto de 2008


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A Importância do Afeto nas Relações Aluno/Professor, Ensino/Aprendizagem


18/03/2008por Silvia Lagos


"[...] trabalhe, mas sempre com a doçura de S. Francisco de Sales e com a paciência de Jó" (Dom Bosco).
A afetividade é a mola propulsora de todo e qualquer processo de desenvolvimento humano. Desde que somos gerados, ainda na barriga da mãe, necessitamos do afeto para nos sentirmos bem vindos nesse mundo. E depois que nascemos, se não tivermos o amor e a atenção dos adultos à nossa volta não aprenderemos a andar, falar, controlar nossos esfíncteres, etc..Num primeiro momento nosso contexto será o familiar, então as figuras significativas, de modelo, serão os pais, irmãos, avós. Mas, na medida em que vamos crescendo, vamos interagindo com o mundo, esse contexto vai se ampliando, ampliando-se também as fontes de estímulo e outras figuras vão sendo introjetadas e utilizadas como modelo. É o processo de socialização. E aqui, como no contexto familiar, a criança sente a necessidade de ser amada, ser aceita, pois, se foi desejada, se foi amada pelos pais, vai ir para o mundo sentindo-se amada, desejada e será um ser desejante, mas mesmo assim necessita dessa confirmação, desse retorno do mundo - ou pelo menos, das pessoas significativas afetiva-mente para ela - no decorrer de toda a sua vida. Se não foi amada e desejada pelos pais, só vai restar o contexto social como possibilidade de resgate de sua auto-estima.E, sendo a escola o primeiro espaço de socialização da criança, fora do contexto fami-liar, esta passa a desempenhar um papel determinante - principalmente através da figura do professor - no processo de aprendizagem, confirmando ou desconfirmando o sentimento de ser amado, de ser respeitado no seu direito de estar nesse mundo, crescer e desenvolver suas potencialidades de forma saudável e na vida adulta, poder somar na sociedade.Gabriel Chalita (2001) entende que, para que um professor desempenhe com maestria a aula na matéria de sua especialidade, ele precisa conhecer as demais matérias, os temas transversais que devem perpassar todas elas mas, acima de tudo, precisa conhecer o aluno. Pois, tudo que diga respeito ao mesmo deve ser de interesse do professor, porque ninguém ama o que não conhece, e o aluno precisa ser amado. E o professor é capaz disso. O aluno tratado com respeito, tendo valorizada sua história de vida, sente-se amado, querido na esco-la em que estuda.Segundo Marcos Sandrini, "Faz parte do ser jovem o apelo ao reconhecimento. A rebel-dia juvenil, bem como o conflito de gerações, traz no seu interior um apelo: 'eu sou gente e quero ser reconhecido como tal'" (2007, p. 95).Perrenoud (apud SANDRINI, 2007, p. 96) afirma que:Para aprender é preciso: dar sentido ao que se faz e ao que se aprende; sentir-se reconhecido, respeitado como pessoa e como membro de uma família e de uma comunidade; não se sentir ameaçado em sua existência, sua segurança, seus hábitos e sua identidade; sentir-se compreendido e apoiado nos momentos de cansaço e fracasso; saber que se pode contar com a confiança dos outros; que o consideram capaz e desejoso de conseguir; acreditar que alguém dá valor ao que se faz ou se aprende; e, melhor que tudo isso, sentir que se é amado [...] (grifo do autor).Chalita assinala, que às vezes, conflitos pessoais leva o professor a construir uma barreira emocional entre ele e o aluno, que embora não seja possível separar o ser humano profissional do ser humano pessoal, o professor tem a obrigação ética de não projetar, ou seja, "despejar" sobre o aluno, os seus problemas, visto que este não possui nem a responsabilidade, nem a capacidade (estrutura emocional) para dar conta do mau humor, da tristeza ou, em algumas vezes, da raiva do seu professor.Chalita enumera doze tipos de professores:a) professor arrogante: considera-se o detentor do saber; na verdade rejeita a si mesmo, não acredita em nada do que diz; necessita de auto-afirmação e usa os alunos como platéia cativa;b) professor inseguro: tem medo do aluno, teme a sua rejeição, de não conseguir dar aula, não ser ouvido, etc., esquecendo que se o professor não acreditar no que diz, será ainda mais difícil ao aluno fazê-lo;c) professor lamuriante: reclama de tudo o tempo todo: da situação do país, da escola, do salário, da falta de participação dos alunos, da falta de material para trabalhar etc., passando a impressão de estar sempre arrasado. Também usa, muitas vezes, a platéia cativa de alunos, para suas queixas;d) professor ditador: não respeita a autonomia do aluno, trabalhando como se estivesse no comando de uma batalha; disciplina é tudo, "dia de prova é também um dia de glória". Está perdido na necessidade de poder, esquecendo que poder e respeito não se impõem, se conquista;e) professor bonzinho: é o oposto do ditador. Tenta forçar a amizade com o aluno, dizendo o quanto gosta dele, trazendo presentes, dando notas altas de forma indiscriminada, respondendo questões no decorrer das provas, pedindo desculpa quando a matéria é muito difícil, enfim, só falta pedir desculpa por ter nascido. A tendência é o aluno não respeitá-lo. Tudo o que vem dele parece forçado, porque procede de uma carência de atenção e de uma necessidade infantil de aceitação.f) professor desorganizado: é aquele professor que não faz planejamento, está sempre perdido naquilo que vai propor em aula, por isso às vezes, cria atividades improvisadas sem fornecer subsídios aos alunos, ou se põem a discutir banalidades. Não possui comprometi-mento algum;g) professor oba-oba: para ele tudo é festa. Adora as dinâmicas em aula. Projeta filmes, sai em campo com os alunos, fala em quebra de paradigmas etc., contudo sem objetividade, sem gancho com o conteúdo da matéria que cabe a ele ministrar;h) professor livresco: entende os livros e não o cotidiano. Em sua aula não há espaço para o aluno, não importa se está acompanhando ou não seu raciocínio, o que importa é que diga tudo o que planejou dizer;i) professor "tô fora": não se compromete com nada, não participa de nada. É uma ilha, se considera auto-suficiente, sem necessidade de troca, de interação social no contexto escolar e comunidade;j) professor "dez-questões": para sua própria segurança, reduz todo o conteúdo dado, de um bimestre em um número "x" de questões, as quais os alunos decoram e de onde algu-mas são selecionadas para a prova. Técnica antiquada que não dá sentido ao conteúdo estu-dado, e que muitas vezes o próprio aluno dá-se conta disso;k) professor tiozinho: é o professor que gasta períodos inteiros de aula, dando conse-lhos aos alunos, invadindo muitas vezes a privacidade dos mesmos, emitindo opiniões sobre questões pessoais que não lhe dizem respeito. Sente-se qualificado (mas não está) a diag-nosticar os problemas dos alunos. Esquece, ou não "sabe", que o ideal é abrir espaço para que o aluno fale sobre ele, "se quiser", ao invés de obrigá-lo a expor sua vida privada;l) professor educador: segundo Chalita, esse seria o professor ideal, aquele que con-segue de verdade, ser um educador, que conheça o universo do educando, que tenha bom senso, que permita e proporcione o desenvolvimento da autonomia. Que tenha entusiasmo, paixão; que vibre com as conquistas de cada um, não discriminando, tratando todos com igualdade. Deve ser participativo politicamente, ter consciência da responsabilidade em estar formando pessoas, ser autocrítico e aberto para novos conhecimentos.Chalita vê no afeto a solução para a educação. Entende que não é possível combater a insensibilidade, o desrespeito, a falta de solidariedade, a apatia, a não ser pelo afeto. Acredita que a escola dos sonhos dos sonhadores, da poesia dos poetas, da maternidade, da luta dos lutadores começa com a crença de que, em se falando de vida - e como educação é vida -, a solução está no afeto. O aluno precisa ser amado, respeitado, valorizado. O aluno não é uma tábua rasa, sem nada, em que todas as informações são jogadas. Todos tem um poten-cial distinto, a ser explorado pelos bons educadores e assim, poderem produzir, crescer e construir caminhos de equilíbrio, de felicidade. Enfim, que o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor.
SILVIA LAGOSPós-Graduada em Matemática



Um comentário:

Nayara disse...
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